A forma mais comum de engano no nosso
sistema de pensamento deriva de usarmos uma mesma palavra com mais de um
sentido.
No caso em questão, a palavra é AMOR. Na linguagem coloquial, amor é usado
como sinônimo de solidariedade, como amor por tudo e por todos aqueles que
estão sobre a Terra. “Eu te amo” é uma expressão usada por um sedutor que
conheceu sua “vítima” há poucos minutos e deseja levá-la para a cama. Pessoas
alegres e pouco criteriosas se dizem encantadas e amam com facilidade cada nova
pessoa que conhecem.
Uma pessoa egoísta empenhada em se mostrar feliz consigo
mesma não titubeia em afirmar: “eu me amo”.
Estamos diante de diferentes usos da mesma palavra: uso equivocado, vazio,
idealizado ou maroto.
Usamos a palavra amor como um 7deOURO em certos jogos: ela
serve para todos os momentos e para todas as situações.
Usa-se mais a palavra amor do que
vive-se o sentimento. E
quantas são as pessoas que se sentem felizes no amor? Pouquíssimas.
E quem é
capaz de definir o que seja o amor? Quase ninguém.
E como podemos pretender nos
dar bem nesse campo se não sabemos nem mesmo como conceituar o sentimento?
Peço
licença para propor uma definição de amor.
*Defino o amor como o sentimento que
vivenciamos em relação àquela pessoa cuja presença nos provoca a agradável
sensação de aconchego. O
aconchego é fundamental para nós, já que, desde o nascimento, nos sentimos
desamparados, ameaçados, inseguros e incompletos.
Nosso primeiro objeto do amor
é nossa mãe. O objeto do amor vai se modificando ao longo da vida, mas em cada
fase corresponde a um objeto definido. *Assim, o amor é um fenômeno
interpessoal, já que amamos alguém cuja presença nos aconchega.
De acordo com
essa definição, não pode existir amor por si mesmo,
posto que não me sinto completo e aconchegado quando estou sozinho. Se me
sentisse assim pleno em mim mesmo, o mais provável é que não existiria o amor
por outra pessoa, uma vez que o convívio íntimo implica em concessões e
dificuldades que só são enfrentadas em decorrência dos benefícios que
experimentamos a partir dessa intimidade.
Não tenho a menor dúvida de que sexo
e amor
correspondem a impulsos completamente diferentes, apesar de que sempre foram
tratados com parte de um mesmo instinto, especialmente por parte da psicologia
psicanalítica, tão influente no século XX. Do meu ponto de vista, o
sexo corresponde a um fenômeno instintivo que se caracteriza pela sensação de
excitação que experimentamos ao tocarmos nossas zonas erógenas. É evidente
que o processo se sofistica principalmente a partir da puberdade, quando surgem
as diferenças físicas entre os sexos e onde entra em cena a excitação que
deriva dos estímulos visuais e também aqueles que derivam de fantasias que
nossa mente é capaz de construir.
De todo o modo, as diferenças entre amor e
sexo são gritantes: amor é a sensação de prazer que deriva do fim da dor
relacionada com o desamparo; sexo é um prazer positivo, já que independe da
existência prévia de uma dor ou desconforto.
O amor é interpessoal, uma
vez que o aconchego depende da presença de uma outra pessoa; o sexo é pessoal,
posto que a estimulação das zonas erógenas pode ser feita pela própria pessoa. Amor e sexo são impulsos completamente
diferentes, que
podem ser vivenciados separadamente.
É claro também que combinam muito bem e
nada é mais agradável do que trocar carícias eróticas com aquela pessoa que
também nos provoca a sensação de aconchego!
Amor ao próximo
pressupõe um sentimento difuso de amor por todas as pessoas, o que não está de
acordo com a ideia de que o sentimento só se manifesta em relação a quem nos
provoca aconchego. Pode existir uma certa sensação de aconchego quando nos
sentimos integrados em um grupo maior, como por exemplo quando nos sentimos
parte de um povo, de uma pátria. Penso que a melhor palavra para definir esse
outro tipo de aconchego derivado de nos sentirmos integrados em um todo maior é
solidariedade.
Solidariedade é um
sentimento humano sofisticado, através do qual nos integramos em uma dada
comunidade.
O sentimento pode nos fazer
integrado a toda a humanidade, o nos permite entender as palavras do poeta
quando ele fala “desses pobres de nós seres humanos”.
Outras vezes usamos em situações nas quais não estamos
integrados, mas estamos preocupados com as pessoas que nos cercam.
Compaixão
descreve um sentimento derivado de nos sentirmos sofridos em virtude de nos
identificarmos com o sofrimento daqueles que estão à nossa volta. Determina um
desejo de ajudar aqueles que estão necessitados. É um sentimento vivido por
alguém que se encontra em uma boa condição, mas que se incomoda com o fato dela
não ser compartilhada por outros membros do grupo.
Na solidariedade, somos
parte do grupo e nos sentimos integrados nele. Na compaixão, estamos fora do
grupo e sofremos com as dores dele.
Amor próprio e autoestima
derivam da ideia de que existiria um efetivo amor por si mesmo, o que contraria
frontalmente a definição de amor.
Acontece que
existe alguma coisa que sentimos em relação a nós mesmos. Só que não se trata
de um ingrediente amoroso e sim sexual.
Não existe amor por si mesmo, mas
existe um importante elemento autoerótico. Existe um tipo de excitação sexual que
deriva de nos sentirmos importantes, valorizados, olhados com admiração.
Corresponde ao que chamo de vaidade.
Vaidade é
conceito mais útil do que narcisismo, já que esse último implica na
continuidade da confusão entre sexo e amor.
Narcisismo não seria amor por si
mesmo, mas sim erotismo focado em si mesmo; para esse fim, a palavra vaidade
presta melhores serviços.
Por força da interferência da razão, a vaidade também
está a serviço da preservação da nossa integridade. Ela nos protege contra
ofensas sutis à nossa pessoa, aquelas que ferem nossa vaidade. Ela nos protege
porque, quando ofendidos, sentimos o oposto da sensação positiva da vaidade,
que é a humilhação.
Humilhação é a dolorosa sensação que vivenciamos
quando somos depreciados, olhados com desprezo ou desdém.
Dizemos que temos
amor próprio quando nos insurgimos contra situações de humilhação.
O termo
ideal para substituir amor próprio talvez seja orgulho – ou
seria honra?
Nos sentimos ofendidos e gravemente feridos quando somos tratados
de modo desconsiderado, o que nos provoca a sensação de humilhação, o que
ofende nosso orgulho. O fenômeno não é amoroso e a ofensa nos incomoda mesmo
quando vem de alguém que mal conhecemos.
É claro que nos magoa mais quando
somos agredidos por aqueles que nos são caros – e mais ainda pelo amado.
Autoestima, apesar de estima
significar afeição, diz respeito ao juízo que fazemos de nós mesmos.
Nossa
autoestima é boa quando somos e agimos de uma forma que nós próprios aprovamos;
a autoestima é baixa quando nós mesmos não estamos concordando com nossos
procedimentos.
É claro que a opinião dos outros pode interferir em nossa
autoestima. Porém, um elogio ou qualquer ação externa que nos enalteça não nos
provocará nenhum efeito se não estivermos satisfeitos com nossas posturas.
É
fato também que uma crítica vinda de fora, dirigida a quem já está tendo um
juízo negativo de si mesmo, será muito mais facilmente absorvida.
*Reafirmo,
porém, que não se trata de gostar de si mesmo e que uma boa autoestima depende
de estarmos vivendo de acordo com nossas próprias convicções.
O que pensar quando se ouve uma multidão
de indivíduos repetir, sem qualquer esforço reflexivo, que “para
ser capaz de amar uma pessoa tem que, antes, amar a si mesma”? Não sou uma boa entendedora do texto bíblico, mas creio que o termo
amor foi usado num sentido muito mais amplo
Penso
que o texto bíblico pede às pessoas que tratem seus semelhantes com a
consideração, respeito e zelo que esperam ser tratados.
A reflexão é antes de
tudo moral, na
qual uma pessoa não deveria se atribuir mais direitos do que aqueles atribuídos
às outras.
Por outro lado, o narcisista –
aquele que, segundo essa teoria, ama a si mesmo – não é capaz de amar outras
pessoas.
O amor se concentra em si mesmo por medo de se deslocar em direção ao
outro.
Medo sim, pois sabemos que o amor envolve risco de sofrimento derivado
de uma eventual perda.
O narcisista é criatura imatura e que, por
tolerar mal dores e frustrações, não se arrisca. Assim, não tendo capacidade
para amar, apenas espera receber amor dos outros, além de amar a si mesmo. Essa
também não é minha convicção, já que pessoas assim imaturas e medrosas não têm
boa autoestima. Fingem estar bem consigo mesmas, mas é só
aparência. No
fundo, sabem que são um blefe e por isso mesmo se tornam invejosas daqueles que
são mais corajosos e, não deveriam ser chamadas de narcisistas.
Se existisse amor por si mesmo, como já escrevi, provavelmente não existiria o
amor como o vivenciamos.
Quem é corajoso, ousa amar e tenta aliviar o desamparo
através do aconchego que a presença do outro determina.
Quem tiver boa
autoestima (juízo que fazemos de nós mesmos) – e isso é muito diferente de amar a si mesmo – será, isso sim,
capaz de escolher melhor o parceiro, uma vez que se considerará com direito a
uma companhia à altura do julgamento que faz de si mesmo.